Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Contos do Vigário

Contos do Vigário

Rede Energetica Pesca Peixe Miúdo

 

Surge no mercado algo fantástico. Em primeiro lugar vamo-nos centrar no caso:

 

Parece que o nosso planeta é um ser vivo. Ernest Hartmann sugeriu que existe uma rede energética por toda a Terra. Umas linhas de Norte para Sul e outras de Este para Oeste cruzam-se e formam uma rede.

 

Agora os problemas:

Quando estamos na intersecção dessas linhas ficamos 70% mais fracos, temos problemas de sono, cansaço, dores de cabeça, exaustão, falta de energia, preguiça, dores no corpo, insónias, dificuldade em dormir, frio, calor, arrepios e frio, etc. (basta ter imaginação e arranjar muitos sinónimos).

 

As linhas energéticas são invisíveis, mas parece que não. Ora reparem que um dos sites de propaganda diz que têm a largura de 21 cm e que se elevam a cada 2 metros na direcção Norte-Sul e 2,5 metros na direcção Este-Oeste, seja lá o que isto quer dizer – acredite! Fantasticamente estas medidas “comumente encontradas, entretanto podem apresentar alguma variação, dependendo do lugar, de diversos fatores como composição do solo, etc.”. Ou seja, as medidas são sempre aquelas mas podem variar aquando uma variedade infindável de factores. O cruzamento destas linhas são um lugar perigoso para a saúde.

 

A solução:

Para deixar de ter problemas como os supracitados e passar a ter apenas um (carteira + tudo o resto) basta adquirir os produtos de uma empresa. Há soluções para singulares, objectos pequenos e até casas! Estes aparelhos anulam a radiação e protegem tudo no seu raio de acção.

 

A Crítica:

Apenas basta dizer que a Terra não é um ser vivo e cai tudo por terra mas vamos mais longe:

1- Provar as linhas energéticas – nada existe

2- Onde inicia e onde termina o fluxo – qual o seu motor? – nada explicado

3- Qual a partícula transportadora e o campo de actuação? Nem uma palavra

4- A medição da energia – vem em que unidades? Nunca li nada que explicasse

5- Medições de largura, diâmetro e distância média das linhas energéticas, como são feitas? Nada de nada sobre a questão

 

Muita gente enganada com o mesmo método das pulseiras do equilíbrio e um vendedor que fala muito mas não diz nada, aliás diz uma série de frases sem sentido para quem tem algum pensamento crítico. Um vendedor deste género apresenta, ainda, uma linguagem corporal de aldrabice e de hostilidade. Podemos ver as palmas das mãos diversas vezes apontadas para baixo ou para ele próprio (num vídeo que não vou colocar aqui para não fazer propaganda a algo errado) entre outros gestos. Ou pode apresentar sinais corporais de afectuosidade associados a sinais de mentira.

 

As fraudes vêm mascaradas com frases sem nexo mas complexas e com chavões científicos para mostrar alguma credibilidade aos leigos. Vêm com ilusões de protecção contra uma romantização. O ser humano tem a capacidade de romantizar o universo em que ele é o principal. Tudo ocorre por sua causa e tudo é entendível de forma simples e tudo é como ele imagina. O ser humano imagina uma rede, logo quando se fala em rede energética ele entende uma rede mas não se interessa pelo energética. Basta criar uma imagem na sua cabeça e está feita metade da venda do produto. Basta inserir na cabecinha deste bichinho uma imagética e explicá-la de forma simples colocando alguns chavões pelo meio. Para finalizar dá-se uma solução simples e barata, com linguagem acessível de forma a trazer as complicações, complexidades e burocracias científicas até ao ser humano. Esses vendedores serão uma espécie de Robin dos Bosques subvertido que pega numa ideia inacessível e trás um pacote bonito cheinho de comprimidos de farinha para despejar a carteira do cliente. Enfia na cabeça deste cliente uma boa dose de ilusão de cura.

 

Parece-me fácil desconstruir uma ideia destas. Parece fácil, mas há quem caia. Há quem seja pescado por estas redes. Precisamos de pensar um pouco e há muita gente desesperada que não quer ou não consegue fazê-lo da forma mais correcta. O peixe “miúdo” é apanhado nestas redes e é sugado tudo o que tem para acabar, no fim, com tudo o que tinha. Paga para curar a doença em troca de um pack de soluções em que oferece uma crença. Esse pack é, afinal, farinha.

 

O dinheiro vai, a doença fica, e a crença desaparece, pois o efeito placebo é temporário.

 

O pack passa a ser farinha + doença – dinheiro – crença = doença com farinha nas mãos.

 

A desculpa é a falta de crença. E aqui está mais um truque: dá-se uma solução errada para culpar o paciente de não usar a solução imaginária (crença). A culpa é do paciente.