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Contos do Vigário

Contos do Vigário

Saiba o Futuro com esta Técnica (In)Falível

Muita coisa ouvi durante a gravidez da minha mulher. Entre superstições e mitos, a estória da tabela chinesa, para saber o sexo do bebé, foi das que mais ouvi porque estava na moda. Trata-se de uma tabela que cruza o mês da concepção com a idade lunar da mãe no momento da concepção. Salta à vista que o pai não interfere nesta tabela. Só faltam uns pózinhos de realidade pois, se a tabela chinesa funcionasse, não teriam morrido mais de 200 milhões de meninas na China e Índia, segundo a ONU, devido ao fenómeno do feminicídio.

Na cultura chinesa privilegiava-se o filho único, que fosse menino. Esta política contribuiu para a eliminação de milhões de meninas por serem consideradas inúteis. Não foi descoberta nenhuma tabela que prevenisse este crime. Talvez, seja por uma triste ironia que as pessoas acreditem nesta tabela. Caso funcionasse, as mulheres chinesas tinham uma forma de saber quando engravidar, de acordo com a tabela. Mas, espantem-se, a tabela funciona! Sim, é verdade, funciona tão bem como a técnica da moeda. Trata-se de uma técnica milenar (mas só desde o tempo em que as moedas apareceram) que permite saber qual das duas hipóteses vai acontecer. Para quem ainda não conhece esta técnica eu passo a explicar: é menino ou menina? É muito simples, escolhe-se que face da moeda corresponde a cada sexo, pega-se numa moeda e lança-se na vertical e a rodar – atenção que tem de rodar várias vezes para ter o efeito pretendido e para o fluxo da energia quântica funcionar. Só é necessário ver com que face cai na mão. A face correspondente à escolha fica voltada para cima. Se o resultado não for o esperado é porque a moeda não foi bem lançada. A probabilidade é de 50% o que, manifestamente, é uma percentagem de sucesso, manifestamente, muito reduzida. O mesmo acontece com qualquer tentativa de adivinhação perante duas escolhas.

O mundo não é tão simples para se adivinhar que evento vai ocorrer baseando-nos em testes apenas com credibilidade popular e sem evidência científica. Vamos combinar fazer uma coisa: eu não vou pedir ao talhante conselhos sobre mecânica automóvel e vocês não vão pedir adivinhação de coisas que são do âmbito de médicos. Se fosse assim tão fácil saber o sexo do bebé não eram precisos testes proteicos no início da gravidez, nem era preciso esperar pela ecografia dos 3 meses. Gosto de imaginar um mundo onde os obstetras analisam uma tabela chinesa em vez de fazer ecografias; onde os médicos usam agulhas e chás nas urgências; onde os economistas usam o micado para analisar os mercados…